os nossos cérebros podem mudar

Os gafanhotos, por vezes, comem-se uns aos outros

The Grasshopper Man – Emanuel Pimenta 2017  (pdf)

Numa batalha, num conflito entre bandos de animais, numa caça – seja na condição de caçador ou de presa – os sentidos têm de estar alerta, não há lugar para reflexões, tudo é imediato, violento e radical. É então que esses neurotransmissores têm um papel essencial.

A leitura de livros, com o chamado mergulho literário, implica uma forte estruturação do sector pré-frontal, conferindo ao ser humano uma maior capacidade de reflexão e de “medida”.

Ao que tudo indica, os sistemas electrónicos têm alterado substancialmente o papel de atuação do sector pré-frontal, com as pessoas em geral lendo menos livros.

Não se trata de alfabetização pura e simples, mas do tempo utilizado na leitura de livros, no mergulho literário.

Ao longo dos séculos, a literatura representou um intenso exercício neuronal funcionalizando intensamente o sector pré-frontal.

Assim, esse intenso exercício visual através do alfabeto fonético e do papel – ou do papiro – produziu a emergência de conceitos como o do indivíduo, do Outro, a democracia, o Estado de Direito, a liberdade negativa – segundo o qual o direito de uma pessoa termina onde começa o da outra – o silogismo, o tempo enquanto passado-presente-futuro, a abstracção da apreciação estética como a conhecemos no Ocidente, a capacidade de planeamento a longo termo, a competência de previsão e assim por diante.

Tal como a intensificação do uso do sector pré-frontal através da literatura produziu a interiorização manifesta pela orientação da atenção ao mundo exterior; a exteriorização e a descorporificação geradas pelo universo electrónico se manifestam numa espécie de volta da atenção para si mesmo, mas agora enquanto superfície.

No universo da literatura trata-se do indivíduo e o Outro, enquanto que para o narciso electrónico o que há é a rápida desintegração do corpo, tomando a antiga ideia de indivíduo enquanto conteúdo do novo meio, agora efémero, desencarnado.

A transformação tecnológica, em termos civilizacionais, produzida pelo mundo electrónico parece, assim, alterar de forma dramática o quadro de intenso uso do sistema pré-frontal anteriormente projectado pela literatura.

A literatura é condição essencial para que possa existir democracia. Não se trata de uma questão de conteúdos, mas de sistema lógico.

— in O Homem Gafanhoto, de Emanuel Dimas de Melo Pimenta. 2017. Locarno. Suíça.

Ler a brevíssima síntese do livro editada por TRIPLOV.

The Grasshopper Man – Emanuel Pimenta 2017  (pdf)