Lisboa Cidade Aberta: gentrificação

PEDRO DOS REIS

Sobre a Gentrificação:

Um tema quente aqui e noutras cidades mundiais. E um tema interessante pelo impacto que tem na vida dos residentes de qualquer cidade. O processo é mais a gota de água no meio das micro-relações entre o poder e os cidadãos. Quando o poder local não faz um grande esforço em reforçar a comunidade (talvez não seja do seu interesse que os cidadãos se possam organizar para além dos esquemas partidários) e bloquear alguns dos seus esforços ou pedidos, de forma a melhorar a sua qualidade de vida. Entretanto, movidos pelo ganho financeiro rápido facilitando a entrada de novos actores e não regulando propositadamente ou irresponsavelmente algumas condições para entrada desses mesmos actores facilmente disrompem e bloqueiam qualquer tentativa de consolidação dessa continuidade deixando os residentes às regras de um “mercado liberal”, onde a ausência de um “árbitro” deixa os residentes à deriva, sem algum mecanismo que os proteja.

Penso que os artistas espanhóis são os Left Hand Rotation, com certeza e tenho acompanhado o trabalho deles desde há vários anos (talvez desde 2010). Um dos exemplos claros criado por eles e ainda antes do fenómeno turístico foi um graffiti numa parede da Estação de Sta Apolónia exigindo uma entrada e correspondente passagem pedonal, de forma a que as pessoas pudessem chegar facilmente ao outro lado. O graffiti ainda lá está a indicar uma proposta de recorte no muro que impede as pessoas de chegar ao rio e sem que essa passagem tivesse sido feita ou alguma outra proposta alternativa fosse realizada. Consigo imaginar que a criação de um hotel naquela zona pudesse mudar a situação e que essa infraestrutura pedida em 2010 fosse concretizada.

Ou seja, o efeito da Gentrificação não é a Gentrificação em si, mas uma surdez por parte dos poderes em relação aos cidadãos, visto que os cidadãos só são importantes de 4 em 4 anos e durante esse intervalo e não havendo propriamente algo a ganhar com eles, não são atendidas as suas exigências ou propostas. A par da Gentrificação e para não polarizar o discurso com uma tendência mais negativa seria interessante também considerar um paralelo com esses mecanismos que foram sendo criados para dar voz aos cidadãos, como os Orçamentos Participativos, por exemplo. E perceber de que forma o Orçamento Participativo pode contrabalançar alguns dos problemas. Não resolve todos, obviamente, mas em teoria é um mecanismo formal que permite que os cidadãos tenham voz e que o seu projecto possa ser aprovado e concretizado pelo poder local. Não tenho seguido muito o OP de Lisboa e por isso não sei até que ponto tem sido bem ou mal aproveitado, mas seria interessante que também fizesse parte da análise da Gentrificação.

Em Lisboa a Gentrificação prende-se com a ausência de regras do Alojamento Local, com a especulação imobiliária e a alienação da Autarquia relativamente à criação de mecanismos que consigam manter um equilíbrio entre os que procuram os encantos da cidade e os que já cá vivem. E isso não tem sido conseguido. É incrível que só em período de eleições tenham pensado em restringir a circulação de autocarros nas zonas velhas da cidade, quando isso devia ter sido acordado com os agentes turísticos, logo desde o início. Agora e respondendo às exigências dos clientes que votam de 4 em 4 anos resolveram criar um remendo que com certeza abrirá fendas ao nível dos operadores, sem que se tivesse pensado ou planeado, de forma a chegar-se a um acordo entre todas as partes. Isto é pura irresponsabilidade.

Grande abraço,

Pedro

Posso publicar o teu email, como está, no blog da Segunda Cidade (privado)?

Viva António,

Sim, claro.

Entretanto irei ver a lista e ver como posso fazer essa participação. Eu por acaso tenho já um trabalho fotográfico acerca da questão das cidades, mas não me foquei propriamente da Gentrificação, mas sim noutro “fenómeno” menos visível e que tem o nome técnico de “leap frogging”. Está relacionado com o planeamento urbano. Foi um modelo muito usado em finais dos anos 40/ anos 50 nos EUA no campo residencial, com a criação dos subúrbios ajardinados e que mais recentemente deu origem às Edge Cities – cidades tecnológicas. Cidades cujo o centro são edifícios de serviços e onde em teoria se desenvolve um mercado imobiliário, com um cariz mais comercial e que serve para cobrir as necessidades de quem lá trabalha. Em Portugal fez-se um plano à risca e que corresponde a tudo isto: um pedaço de território que fica no meio de três concelhos: Sintra, Oeiras e Amadora e a que deram o nome de Taguspark. O meu trabalho foi ir para além do “centro” do Taguspark e documentar os vários projectos que ficaram a meio, ou que foram mesmo interrompidos por falta de financiamento, dada a implosão da bolha especulativa do mercado imobiliário. Não incluí aqui o terreno polémico do Duarte Lima que tranquilamente continua a ser lavrado anualmente.

O interessante da Gentrificação é que temos de novo uma bolha especulativa, mas dada a má experiência do modelo das Edge Cities, que se baseava no crescimento económico sustentado em indústrias e serviços existe outro baseado no fluxo turístico. Ou seja, não é baseada numa expectativa de geração de conhecimento e produtos desse conhecimento (passíveis de ser exportados), mas de algo tangível e que é tão humano como ter onde dormir e ter onde comer (alojamentos locais e airbnb; e restaurantes e bares) Será normal por isso que a Gentrificação à portuguesa seja exactamente isso.

A par disso e para tentar salvar os bancos temos ainda o caso dos “vistos gold”, que também é curioso de analisar. Começou-se por 500.000€, mas tanto quanto sei e apesar de terem “apertado” os vistos, agora bastam 300.000€ para ter um “visto gold”… é caricato. Mas este foi de facto o início da Gentrificação – a entrada de pessoas que em busca de benefícios fiscais ou outros menos claros procuraram um porto de abrigo que lhes garantisse para lá desses benefícios, o acesso ao espaço europeu.

A partir daí foi um somar de “notícias” sobre as melhores cidades para viver, com Lisboa e o Porto sempre nos tops e deu-se a massificação do turismo. Talvez antes se deva falar igualmente das estratégias de expansão e consolidação das companhias aéreas low cost, que de facto ajudaram a redefinir o fluxo turístico na Europa, sobretudo; e/ou o impacto da Primavera Árabe na redefinição do fluxo turístico habitual até aquela altura.

Lisboa está na moda, de facto, mas foram várias as variáveis que levaram a criar essa moda e não foi por boas políticas governativas. Até agora só se tem visto uma ausência das mesmas.

Seria interessante que todo esse dinheiro que está a alimentar agora a “pequena economia” servisse para repensar algumas áreas produtivas que permitam o desenvolvimento indústrial e de criação de bens e serviços passíveis de ser exportados.

Dados os “tão bons” resultados que o fluxo turístico privado tem tido na economia (discutível, como é óbvio), porque não fazer uma espécie de vistos gold para empresas, que de facto pudessem trazer riqueza real ao País.

E isto seria uma longa conversa, porque há muito mais para dizer sobre este assunto.

Boas férias e até breve!

Eu entretanto vou estar fora de 12 a 23 de Agosto, mas estarei disponível nessa altura.

Grande abraço,

Pedro