A Segunda Cidade no The New Art Fest

A Segunda Cidade, na próxima edição do New Art Fest.

Foi decidido, apesar da escassez de meios e apoios, entre mim e a Ocupart, concentrar a edição deste ano do New Art Fest no projeto A Segunda Cidade, fazendo da sua apresentação um exercício multidisciplinar vivo e experimental.

Enviarei um breve um diagrama do festival para melhor se perceber como penso organizar as unidades temáticas do mesmo.

Para já, convido-vos a ler o texto que fundamentará o projeto no momento de o dar a conhecer publicamente.

Segunda Cidade
Lisboa Cidade Aberta

Por uma cartografia participativa

O objetivo desta cartografia, pensada em moldes colaborativos, é mostrar como a nova dimensão eletrónica e digital da realidade está a mudar física e culturalmente as cidades e os seus habitantes, reais e virtuais.

No início deste ano, artistas, engenheiros, arquitetos, músicos, fotógrafos, escritores, historiadores, guionistas de hipermédia, sociólogos e gestores de projeto sentaram-se à volta de uma mesa, no esplêndido espaço da Editora Sá da Costa, situado na Praça de Camões, e começaram a discutir como conceber, desenhar e apresentar um protótipo conceptual da Segunda Cidade.

É verdade que até agora apenas pudemos arranhar o tema, como bem sublinhou José Oliveira num comentário a este preâmbulo. Estamos na fase do caldeirão de ideias e disciplinas potencialmente convergentes. A recetividade a todo o género de contribuições é, assim, muito grande, e o desejo de diálogo produtivo, ainda maior.

À partida existem dois sabores, ou padrões, cuja terminologia, ainda incerta, irá naturalmente mudando e ajustando-se à clareza crescente das ideias:

— O padrão social_semântico mostra o novo arquétipo tecnológico da cidade.

O crescimento virtual da cidade, proporcionado pela Internet da Informação, pela Internet das Pessoas, pela Internet das Coisas, e pela Internet Biológica, é uma realidade nova, revolucionária, a que falta uma cartografia apropriada.

— O padrão geo_neo_lógico mostra o que faz durar uma cidade.

Para além da geografia temos a água, o mar e os rios, mas também as pessoas, os seus abrigos, os caminhos que cruzam ou seguem paralelos, as esquinas, os miradouros, os campanários e as sombras cálidas de verão, as palavras que se acumulam e distinguem, a memória das pedras.

Há uma cidade lenta que atravessa o tempo e estrutura a qualidade da cidade frenética do dia a dia. Nela, por ela, e para ela crescem agora novas pontes, andaimes, tecidos e redes, materiais e imateriais, humanos e pós-humanos, que precisamos de conhecer melhor. Ou seja, que precisamos de mapear.

Há uma metamorfose em curso nas cidades, nos seus habitantes e transeuntes (de carne e osso e digitais), geratriz de uma transição das sociedades modernas e pós-modernas para sociedades pós-contemporâneas. A cidade contemporânea nunca existiu!

A sociedade pós-moderna, ou a “condição pós-moderna”, refere-se, na visão do já desaparecido filósofo francês, Jean-François Lyotard, ao fim da teleologia moderna, manifesto por uma espécie de dissolução das grandes narrativas: marxismodemocraciaarte modernaarte contemporânea., etc.

As grandes retóricas cederam à emergência das micrologias e dos sistemas artificiais de complexidade crescente: ciência, tecnologia, globalização e redes cognitivas, multiculturalismo, objetos comunicantes e máquinas inteligentes, reparação, reconstrução e reprogramação biológicas, ou ainda a hiper-estimulação dos apetites sensoriais.

No campo das artes, a chamada ‘arte contemporânea’ foi uma tentativa efémera de transformar a ‘arte moderna’ numa arte eterna, desenhada para manter a inércia burocrática e comercial do património constituído, bem como da especulação financeira associada a esse património e à produção de novos artefactos.

O colapso do tempo moderno, de que o tempo pós-moderno é a transição, produziu um tempo novo, ainda instável e com contornos imprecisos, a que chamo mundo pós-contemporâneo. Neste novo mundo existem sociedades e culturas pós-contemporâneas, onde a abordagem pós-contemporânea das artes é uma consequência inevitável.

O que distingue radicalmente este dinâmico tempo pós-contemporâneo do congelado tempo contemporâneo é a expansão acelerada do mundo artificial inteligente, onde também o tempo é artificial, pois deixamos de o poder dividir entre passado, presente e futuro.

O “tempo” pós-contemporâneo não corre como correm os rios da minha aldeia, nem obedece à estrutura temporal dos seres humanos e suas fantasias.

O tempo pós-contemporâneo e o que este tempo gera são o resultado de uma coisa nova. Bruno Latour, Michel Callon e John Law chamaram-lhe ANT (Actor-network theory). Outros entendem-no como nascimento de uma realidade pós-humana mergulhada na chamada economia da atenção. Mais do que uma era antropocénica, há quem veja na nova realidade a transformação do ser humano convencional numa espécie de criatura híbrida cibernética a que chamam ‘numan’. Eu prefiro chamar-lhe, para já, sociedade pós-contemporânea.

O artista, segundo Alfred Gell, é simultaneamente um ‘agente’ e um ‘paciente’ entre o objeto-arte (o ‘protótipo’) e a comunidade.

O artista não é, pois, o resultado da pura subjetividade narcisista que a modernidade acolheu de braços abertos e potenciou na sequência da libertação revolucionária do indivíduo pós-medieval.

O artista foi desde sempre um artífice competente e obstinado de uma relação subjetiva concreta que é estabelecida no cerne das comunidades em movimento, entre os seus membros e aquilo que os rodeia. Esta mediação demiúrgica, ou filosófica, através das formas que representam, e das sensações, exigiu desde muito cedo o domínio da técnica no sentido de um saber fazer potencial cuja perfeição só está aparentemente ao alcance de alguns eleitos, ou obstinados. Seria, pois, muito estranho que os artistas de hoje perdessem o contato com a complexidade exponencial das tecnologias da desmaterialização. Nós nunca vimos a coisa, mas sempre, e desde sempre, a sua imagem!

A Segunda Cidade será, em suma, tal como o Google Maps, uma meta-cartografia, e uma “carte du sens” à maneira de René Thom. Ou seja, uma arquitetura epistemológica.

Por uma questão de método, a Segunda Cidade, nesta fase de desenvolvimento, subdivide-se em duas unidades de projeto: 2C Social Semântica e 2C Geo Neo Lógica.

2C Social Semântica dedica-se à análise estrutural das componentes físicas da cidade tecnológica subterrânea, superficial e atmosférica. Esta começa nos satélites e nos cabos submarinos intercontinentais, passando depois pela fibra ótica enterrada, pelos grandes e pequenos servidores, Routers Wi-Fi, Internet das Coisas, Espaços Wi-Fi, nuvens informáticas, interfaces urbanas interativas, e próteses cibernéticas pessoais, tais como o pacemaker, o dispositivo intrauterino, ou os antidepressivos e os “smartphones”.

2C Geo Neo Lógica, por sua vez, estuda a textura cognitiva, sensorial e afetiva da cidade, ou seja, a sua vida invisível, a sua densidade histórica, a sua intemporalidade subjetiva.

A ideia a que dei sucessivamente o nome Second City, e Segunda Cidade, nasceu em 2016 ao explorar hipóteses inovadoras para um festival de arte sintonizado com a expansão da tecnosfera que nos envolve e determina para lá da nossa vontade e juízo.

A chamada arte contemporânea não escapou ilesa a este terramoto de paradigmas!

Em 2016 fizemos algumas experiências com “marcadores” de Realidade Aumentada.

Na Livraria Sá da Costa misturámos a capa de um livro de Fernando Pessoa com o áudio de um vinil muito raro de João Villaret, perdido no labirinto do YouTube. Percorrer uma livraria histórica de Lisboa, e poder através do meu telemóvel ser surpreendido pelas palavras do poeta ditas por um dos seus mais memoráveis declamadores, é uma realidade nova que mudará para sempre a ecologia cultural da cidade.

Jorge Castanho apresentou no seu atelier uma família de esculturas de terracota e de desenhos a que chamou Espectros. Um desses desenhos foi transformado num marcador RA, que por sua vez dava acesso a uma animação 3D.

Outras experiências, com obras de Álvaro Seiça, Emanuel Dimas Pimenta, e Sara Orsi, não chegaram a ter em novembro de 2016 a visibilidade pública que mereciam, mas foram realizadas, não deixando assim de ajudar a abrir um caminho original para a arte em realidades aumentadas.

Segunda Cidade é uma coisa nova, mas a que falta ainda forma e consciência.

O mapa desta forma nova e desta consciência por vir assentará numa matriz de pontos sensíveis, a que chamo marcadores urbanos.

Bem-vindos à Segunda Cidade!

António Cerveira Pinto

PS: este texto foi discutido no dia 31 de julho com Pedro Andrade, e subsequentemente melhorado. Deve-se-lhe, nomeadamente, o empréstimo da expressão “geo-neo-lógica”.

Atualizado em: 31/7/2017 23:59